18
Jun
2013
Albânia
Escrito por Adriana Miller

Ok, confesso que até ano passado nunca tinha prestado muita atenção na Albania assim, digamos, turisticamente.

Uma amiga até brincou, perguntando se eu escolho os destinos de viagem olhando no mapa e procurando por lugares aleatórios que ainda não conheço. E quer saber? As vezes sim!

E assim a Albânia entrou em nossas vidas!

Na verdade estávamos buscando um lugar no sul da Europa pra passar um fim de semana prolongado no verão – algum lugar que tivesse sol e temperaturas altas garantidos! Mas infelizmente os destinos mais comuns geralmente lotam com meses de antecedência, muitas vezes sobrando apenas opções de preços proibitivos… mas a Albânia não! Então marcamos as passagens primeiro, e planejamos a viagem depois!

E para minha surpresa, foi bem difícil encontrar informações sobre o país e sobre o que fazer. E o pouco que íamos descobrindo nem sempre era positivo…

Um país pobre, ainda na sombra do subdesenvolvimento de uma ditadura comunista e muitos anos fechados para o mundo. Muitas recomendações aconselhando a não fazer nada independentemente, não pegar estradas por lá e evitar as áreas das montanhas…

Mas por outro lado, aos poucos fui descobrindo uma cultura fortíssima, criada a base da paulada e preservada graças a uma forte presença rural, e claro, a cortina de ferro.

A Albânia foi o último país Europeu a se tornar independente do Império otomano em 1912, o que apenas abriu as portas para que eles fossem invadidos e dominados por todos os seus vizinhos. Já na década de 40, as sombras da 2a Guerra Mundial, a Albânia passou a ser governada por ditadores militares comunistas, que usaram terror, fome, e isolamento para se manter no poder muito além do próprio comunismo da URSS.

Até a década de 1990, quando toda região dos Balkans implodiu numa guerra sangrenta, a Albânia não tinha canais de televisão, nem de rádio, a não ser aqueles usados para propaganda política pelo governo. Eles também não tinham estradas… mas não fazia a menor falta, já que a população “civil” não tinha o direito a comprar carros!

Durante os anos de ditadura e socialismo, o governo confiscou todos os bens privados e implementou uma política de reforma agrária, garantindo que ninguém ficaria sem emprego nem terra pra trabalhar. Mas em compensação, o governo também confiscava todas as “sobras” e lucros além da subsistência da família, e portanto nunca faltava – mas também nunca sobrava.

Uma das coisas interessantíssimas que aprendemos é que até recentemente (inicio dos anos 2000, após o final da guerra dos Balkans), as famílias Albanesas eram alocadas “férias” pelo governo: duas semanas por ano, com datas fixas e intransferíveis. O “pacote” de férias incluía passagens de trem (já que ninguém podia dirigir) para “resorts” comunitários na costa ou nas montanhas do país. As famílias que tinham a sorte de passar férias na costa do Adriático levavam seus rádios e televisões: dependendo do clima – e da sorte – eles até conseguiam pegar canais Italianos!

Uma das coisas que mais me marcou em relação a cultura Albanesa é a importância que eles dão as estruturas familiares e a honra.

É debatível se essas práticas ainda deveriam ser aceitáveis num mundo moderno, mas dois dos principais símbolos do pais são os códigos de honra (“Besa“) e as “Virgens Juradas“.

Eu já tinha ouvido falar nas “Virgens” Albanesas através de um amigo fotógrafo aqui em Londres que fez um projeto sobre elas: nas áreas rurais da Albânia, sobretudo nas montanhas do nordeste, as famílias são comandadas sempre pelos homens – que além de serem o “homem da casa” e ganha pão da família, também tem atuação política em suas vilas.

Porém e quando os homens da família morrem, e só sobram mulheres? Nesse caso, uma das mulheres – solteiras – da família fazem um juramento celibatário em que viverão suas vidas como homens. Elas serão responsáveis pela honra da família, pelo trabalho e administração e terão direitos iguais nas decisões políticas de sua cidade.

Com a urbanização e modernização da nova Albânia, essa prática esta em desuso, mas estima-se que ainda existem cerca de 40 famílias com virgens juradas vivendo na Albânia!

E diretamente relacionado com essa filosofia familiar e de comunidade esta o código de honra Albanês, o “Besa”.

Besa em Albanês significa simplesmente “fé” ou “palavra de honra”, e é um dos traços mais fortes da cultura local. Um Albanês que não mantenha sua palavra ou sua honra, em casos extremos pode vir a ser banido de um comunidade ou cidade, pois será visto como uma vergonha para toda sua família e amigos.

Em casos extremos, o Besa é levado a sério em proporções estratosféricas: em um país que se viu em meio a anarquia política e governamental e isolado do mundo durante tantas décadas (e séculos, se considerarmos a era Otomana) a população – que tanto presa a honra pessoal e familiar – fazia justiça com as próprias mãos: e assim uma “besa” lava a outra…

Ou seja: se você matar alguém da família, eu tenho o direito a matar alguém da sua. Se você me roubar, eu posso te roubar de volta. E assim por diante.

Seja qual for o crime… um olho por um olho. Um dente por um dente.

Pode parecer selvageria, mas foi esse conceito de honra e honestidade e igualdade que manteve a população “controlada” e pacífica durante tanto tempo.

E quem tomava essas decisões? Bem, os homens de cada família (sejam eles homens de verdade ou as “virgens”)!

Sem dúvida alguma, aprender sobre a Albânia foi a melhor parte da viagem!!

E que tal um pouco de trívia Albanesa?!?

Religião: Apesar de ter uma população majoritariamente Muçulmana, a presença católica também é bastante forte, tento inclusive fornecido ao mundo um dos maiores símbolos de bondade e fé: a Madre Tereza de Calcutá!

A Madre Teresa alcançou sua “fama” através de seu trabalho missionário na India, mas nasceu e cresceu na Albânia da Anarquia e do Comunismo (na verdade ela nasceu na região que hoje em dia faz parte, geograficamente, da Macedônia, mas é etnicamente – e legalmente – Albanesa), e é fonte de orgulho imensurável para seus compatriotas, independente de sua religião!

Geografia e história: E olha, por falar nisso, é impossível ler sobre a história da Albânia sem ter um mapa a mão!

O pais já foi parte de um país que também incluía a Eslováquia, a Bulgária, Croácia, Montenegro e Macedônia. Além de também já ter feito parte do Império Romano, e da Grécia. Uma coisa assim meio jogo de “War” sabe? Quem fosse chegando ia expulsando os outros e dominando, fazendo inúmeras combinações geográficas diferentes!

Mas hoje em dia isso deixou pra trás uma herança histórica e arqueológica incrível, fazendo com que a Albânia seja uma dos maiores “segredos” do continente!

Eu mal consigo imaginar o quanto o país vai mudar nos próximos anos, e tenho certeza que quando voltármos, tudo será tão irreconhecível, que será como visitar um novo país!

DICAS PRÁTICAS:

– O único aeroporto que serve o país fica em Tirana, a capital da Albânia. Mas dependendo da região a ser visitada, você também pode chegar ao país através da Macedônia, Croácia ou Montenegro.

A partir de Londres, a British Airways tem voos diretos entre Heathrow e Tirana, que dura apenas 2 horas!

– O difícil vai ser conseguir chegar de um lugar ao outro lá dentro! Quando fomos (em Agosto de 2012) não existiam linhas regulares de ônibus e os trens estavam em estado de calamidade pública (além de terem linhas muito limitadas, horários irregulares e ferrovias sem manutenção).

Alugar carros também – ainda – é inviável: além de não ter cias de aluguel de carros internacionais no país (mas imagino que isso vá mudar em breve), os países vizinhos proíbem que seus carros alugados sejam levados além da fronteira Albanesa!

– Depois de catar cada cantinho da internet, achei uma agência de viagens em Tirana que nos levou pra passear pelos arredores da cidade, e que nos ensinou tudo que aprendemos sobre o país!

A “Albania Trip” foi nosso anjo da guarda no país, além de ser a simpatia em pessoa e super culto – sobre o mundo e seu próprio país! O Elton, nosso guia, morou quase sua vida toda na Suiça, onde seus pais imigraram quando ele ainda era criança, e onde ele estudou até terminar a universidade. Agora, depois de formado e fluente em 5 línguas, resolveu voltar a seu país e participar dessa revolução/evolução que esta prestes a acontecer!

– A moeda utilizada é o “Lek” (que simplesmente significa “dinheiro” em Albanês!), mas Euros e Dólares podem ser trocados na casa de câmbio do aeroporto ou nas recepções dos hoteis. Mas o máis fácil mesmo é sacar dinheiro diretamente na moeda local em um dos muitos caixa eletrônicos espalhados por Tirana.

– Apesar dos pesares, a Albânia é um país muito seguro; Não tivemos problema algum em andar nas ruas a qualquer hora do dia, andar com câmaras penduradas no pescoço, pagar taxis no aeroporto e simplesmente ir e vir.

– Nós ficamos num hotel ótimo em Tirana – mas ele merece post especial!

– E por fim, mais um fato interessante: na Albânia não existe McDonalds!! :-)

Siga me!

Adriana Miller

Sobre a Autora at Dri EveryWhere
Adriana Miller, 34 anos, Carioca. Economista e profissional de Recursos Humanos Internacional, casada e mãe da Isabella.
Atualmente morando em Londres na Inglaterra, mas sempre dando umas voltinhas por ai.
Viajante incansável e apaixonada por fotografia e historia.
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Categorias: Albânia, Viagens
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10 Comentários em:
"Albânia"

  1. Jackie - 18/06/2013

    Dri, adorei o post! Tb sabia bem pouco sobre a Albania, mais sobre o passado mais antigo.
    Pergunta: nao tem mcdonalds, mas…tem coca-cola? Rs sao poucos paises no mundo que nao trm, eh um titulo, hein, rs
    Bjs,

  2. Stephanie - 18/06/2013

    Dri, tb adorei o post! Acho que você é a primeira pessoa que eu “conheço” que foi pra Albânia! :) Que venham os próximos posts, já estou curiosa. Beijos!!!

  3. Fernanda - 19/06/2013

    Muito interessante! Estou esperando mais posts sobre o país!

  4. myiska - 19/06/2013

    Gostei muito de saber sobre a Albânia, suas viagens trazem tb cultura aos leitores.
    Abçs

  5. Wanessa - 19/06/2013

    Um livro muito legal para entender esse código de honra albanês é o Abril Despedaçado, do Ismail Kadare. No Brasil, virou um filme ambientado no sertão nordestino, mas, no livro, a história se passa na Albânia, na década de 1970, e conta a história de um rapaz de uma família que tem uma rixa com outra. Morre um de um lado, que tem o direito de se vingar, e então morre um do outro, que passa a ter o direito de se vingar também… E, a cada morte, tem todo um ritual com regras muito rígidas: é preciso ir até os sábios (imagino que sejam esses “patriarcas” que vc mencionou) e pagar o tributo da morte. Aí, tem um prazo de trégua e, depois de esgotado, o outro lado pode revidar. Tem um local que funciona como uma espécie de “asilo”: quem decide viver lá, sabe que não vai ser morto pela família rival, mas tem de viver preso o resto de seus dias. Fiquei muito impressionada com esse livro, que é um tanto perturbador. Acho q vc iria gostar de ler, principalmente tendo ido à Albânia.

    • Adriana Miller - 19/06/2013

      Nossa, parece ser super interessante! Obrigada pela dica!

  6. Luciana Rodrigues - 19/06/2013

    Minha cunhada morou na Albania (em Tirana), por motivo de trabalho. Vou até mostrar esse post pra ela. Tb quero muito ir! Tenho alguns conhecidos albaneses aqui na Itália, e sao pessoas muito legais, cultas, abertas.

  7. Mayra Boppre - 19/06/2013

    Tô adorando a história da Albânia!! Já vai pra listinha infinita de países a serem visitados! Rs.
    Bjsss

    • Adriana Miller - 19/06/2013

      Hehehehe
      Minha listinha também é infinita! :-)
      Um dia a gente chega lá!

  8. myiska - 20/06/2013

    Wanessa
    Valeu a dica do livro, tb vou ler; que costumes tão interessantes!

    Abç