01 Dec 2010
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Kilimanjaro – Equipamento: oque usamos e oque valeu a pena levar

Dicas de Viagens, Kilimanjaro, Tanzania

Antes de viajar pra Tanzania eu fiz um post com todos os itens de equipamento que a agencia recomendou que levassemos pra viagem. Alem disso, fui seguindo as dicas do Aaron, que tem bem mais experiencia nesse tipo de viagem, mais outros amigos que já tinham escalado o Kili em anos anteriores.

Mas ainda ficava aquela duvida: sera que preciso isso tudo mesmo? Vai faltar alguma coisa? Vou passar frio? Vou passar calor? Vou ficar desconfortavel? Afinal, cada item dessa lista era bem caro, e rolava aquela insegurança de gastar uma fortuna em coisas que nao usaria nunca.

Entao aqui esta o post que finalmente faltava pra fechar a saga Kilimanjaro – bem a tempo de comecar a preparação pra nossa proxima viagem de escalada/hikking/aventura (daqui a 5 meses!).

Bem, pra começar afirmando, que sim. Definitivamente usei absolutamente tudo que a agencia recomendou que levassemos. Por mais que todo mundo quisesse meter o bedelho e dar sugestões e opiniões, eu preferi seguir a opinião dos experts, e achei que numa situação tão extrema como seria o Kilimanjaro (e foi!) pecar por excesso nao seria tao ruim…. o problema seria perceber que não levei alguma coisa importante a 4 mil metros de altura!

O item mais importante de TODOS sem duvida foi a bota de caminhada. Na verdade a bota eu já tinha, e é importante usar uma bota “usada”, e mesmo assim nas duas ultimas semanas antes da viagem, eu usava minha bota pra tudo quando é canto, pra ir moldando ao meu pé, ir “engrossando” a pele e amaciando a sola. Otimo conselho que eu acatei e deu super certo, pois nao tive nenhuma bolha sequer pra contar historia!

Os itens que ocupam o segundo lugar na lista de importancia foram as coberturas a prova d’agua – os “shell”. Nós realmente demos MUITO azar com o clima, e mesmo viajando na epoca de seca e escolhendo a trilha mais seca da montanha, pegamos chuva TODO dia dos 6 dias de escalada. Mas com ou sem azar, em qualquer montanha que seja tão alta, o clima é muito instavel, e as estações podem mudar repentinamente varias vezes por dia. E voce tá lá, completamente exposto aos elementos, chova ou faça sol.

E quando choveu, so mundo desabou! E quando nao estava chovendo, estavamos caminhando neblina adentro, que deixa tudo igualmente molhado. Entao uma OTIMA capa de chuva (com capuz e viseira, pra proteger seu pescoços e rosto), calça de caminhada a prova d’agua e capa para mochila.

E foi isso que eu usei todos os dias, do primeiro ao ultimo dia da viagem.

Depois vieram os itens de “camadas”. Como disse, o clima é super voltail o dia todo, entao de um segundo pro outro, o tempo virava completamente de um super frio com chuva, pra um sol estonteante. E isso, somado ao exercicio fisico de subir a montanha, me dava umas ondas de calor imediatas!

Com a blusa de fleece ultra grossa

E nessas horas, as camadas iam sendo retiradas uma a uma, ou vestidas uma a uma. O melhor investimento foram as blusas de Lã Merino e os casacos de fleece. Então facilmente eu colocava ou retirava 3 ou 4 camadas de roupa sem grandes complicações.

Colete de plumas por cima da blusa de Lã Merino

E um outro iten que o Aaron me convenceu de levar (ele tinha 2) foi um colete de plumas – esquenta o torso, mas deixa os braços fresquinhos, e era oque geralmente eu amarrava do lado de fora da mochila, para ter acesso facil quando paravamos pra descansar, beber agua e comer no meio da montanha – porque mesmo nos momentos de calor durante a subida, 30 segundos depois que voce para de caminhar no vento ou neblina a temperatura do corpo cai drasticamente!

A mochila é outra coisa que pode facilitar demais sua vida, ou virar um calvario! Nossas malas com saco de dormir, roupas, e tal eram levadas pelos carregadores, mas todo dia tinhamos que carregar uma “day pack” com mudas extras de roupas (as camadas), agua, barras de cereal, trail mix, filtro solar, camera fotografica, kit farmacia e oque mais voce quiser carregar. Mas ao longo do dia, cada grama a mais nas suas costas, a cada minuto a mais que vc esta andando, vai pesando mais e mais. Entao é importante usar uma mochila anatomica, com uma boa estrutura e bem ventilada nas costas, que tenha capa de chuva embutida (para acesso rapido quando começava o temporal).

A mochila

Mas oque fez a diferença MESMO, foi levar uma “pochete”! É feio, é brega, podem falar oque for… mas foi a ideia mais brilhante que tive em toda essa viagem!

A pochete em ação!

Essa pochete ficava presa na minha cintura o dia todo e assim me dava facil acesso as cosias mais urgentes, sem ter que me “desenrrolar” toda da mochila, na chuva, cheia de casacos e tals. Entao na pochete eu carregava minha camera fotografica, rolo de papel higienico, lip balm, filtro solar, garrafa de agua, e mais qualquer outra coisa que eu pudesse precisar ao londo do dia.

O lanchinho que estava guardado na pochete

Outra coisa que tive a idea brilhante de levar e nao só foi usada todo os dias, o dia todo, como ainda me salvou: uma faixa de cobrir orelha – feit de fleece duplo e com fecho de velcro.

A faixa tapa-orelha

Assim eu ficava com minha cabeça e orelhas sempre quentinhas (muito importante pra balancear a temperatura do corpo), escondia o estado precario do cabelo sujo (6 dias sem lavar!), era facil de colocar e tirar (tinha um velcro na parte da nuca) e nao ficava embaraçando nem abafando meu cabelo (um problemão pra quem tem muito cabelo como eu).

Nos ultimos dias antes da subida do Summit, o frio foi apertando mais e mais, principalmente durante a noite, com temprarturas ingratas abaixo de zero e um vento impiedoso, e a unica peça de roupa que realmente fazia a menor diferença foi um SUPER casaco de plumas.

Tanta roupa e tantas camadas que se eu me jogasse lá de cima, ia quicando atéééé lá embaixo!

O problema é que um bom casaco de plumas é uma peça MUITO cara… e comprar um casaco qualquer meia boca, poderia ser perigoso demais, entnao decidi não comprar nenhum e usar um dos casacos que o Aaron já tinha. Obviamente ficou gigantesco em mim, mas como esse modelo tinha fechos de ajuste nas mangas e na cintura, e nós dois temos mais ou menos a mesma altura, acabou dando certo e eu fiquei ultra quentinha!

A lanterna de cabeça, eu achei que só seria usada durante a escalda final, que passamos quase 7 horas caminhando completamente no escuro, mas na verdade eu usei todas as noites, porque simplesmente estavamos no meio do NADA e nao tinha nenhuma luzinha em lugar nenhum. Então entre a barraca e o banheiro, pra ir até a tenda refeitorio, escovar os dentes, ler um livro…

Nós levamos 3 lanternas – uma pra cada um, e uma extra – mais baterias extras, e logicamente, acabamos usando as 3! Então foi otimo ter uma lanterna de emergencia, pois teria sido impossivel caminhar no escuro sem ela!

Todo o resto das coisas que levamos foram usadas com mais ou menos intensidade ao longo da viagem, mas definitivamente não foram tao importantes quanto esses itens ai em cima.

Das coisa que eu achei inuteis, e nao pretendo usar de novo em outras viagens fora:

As “bengalas” de caminhada (Walking sticks), pois achei um incomodo e um movimento cansativo a mais, ter que ficar coordenando os braços e levantando e abaixando aquele ferrinho o dia todo repetidamente!

Mas isso é uma coisa super individual, que eu levei, mas pra mim nao deu certo (usei apenas pra descer, quando meu joalho começou a doer, então serviu como bengala mesmo) mas o Aaron por exemplo, esta tão acostumado que nao consegue manter o ritmo de caminhada se nao usar dois sticks. Então apesar de ter achado um pouco inutil, acho que vale a pena ter só pra ver como vai ser.

O Camel Back (um saco de plastico com um canudo, pra beber agua sem ter que usar uma garrafa) foi outra coisa que achei desnecessaria, pois dois motivos: o primeiro foi sem duvidas o gosto de plastico que deixava na agua, que nao suportei, e o segundo e motivo e mais importante foi que o canudo congelava! O saco com a agua podia ficar protegido do frio dentro da mochila ou ate memso dentro do casaco, mas os restos de agua que ficavam no canudo, nao dava pra evitar, e acabavam cristalizando, e entupindo tudo!

O canudo azul do meu Camel Back

Entao acabei usando minha garrafinha de metal de 0,5 litro, pois assim ela encaixava certinho na pochete, tinha um bico pra beber e uma tampa, e assim achei que era bem mais facil medir e regular os 3 a 4 litros de agua que eu tinha que beber todos os dias!

De resto, as meias de la foram otimas, o oculos de sol eu usei o tempo todo (mesmo nos momentos de cminhar dentro na neblina, o reflexo do sol me incomodava demais), bone, luvas de lã e todos os itens da minha necessaire!

Por fim, a Paula me fez uma pergunta importantissima nos comentarios: E as baterias das cameras?!

Bem, eu levei duas cameras (a Sony Cybershot HX1 e a Sony Cybershot DSC-W170) e como sempre tiro muitas fotos, seja qual for a viagem ou ocasião, eu tenho duas baterias para cada uma delas.

Mas alem disso, como sabia que passaria dias sem acesso a eletrecidade, e a vida util de baterias é muito impactada por temperatura muitos baixas e altitude elevada, fiquei morrendo de medo de acabar ficando sem baterias lá em cima.

E foi então que descobri o Pebble no site da Amazon.co.uk! O Pebble é do tamanho de um Blackberry, mas na verdade é um carregardor portatil; ele vem com cerca de 15 “ponteiras” que se encaixam nos mais variados aparatos: cameras de video, fotograficas, celular, Blackberry, iPhone, iPad, celulares variados, bla bla bla. É só carregar seu Pebble no seu computador (por USB) e uma vez carregado, ele tem energia suficiente pra regarregar um Iphone 3G 4 vezes (o iPhone tem uma bateria pessima, que nao dura mais que 1 dia, e é considerado o aparelho que mais “come” energia), ou um celular comum inumeras vezes, cameras fotograficas e tals.

Então foi isso que nos salvou no Kili! E nos permitiu tirar mais de 2.000 fotos (cada um!) mesmo sem energia eletrica.

(Nao. Infelizmente nem a Amazon, nem o Pebble pagou por esse post :-) Mas se surgir interesse, estamos ai!)

Adriana Miller
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06 Oct 2010
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Dia 6: O ultimo dia no Kilimanjaro!

Dicas de Viagens, Kilimanjaro, Tanzania

O ultimo dia foi magico… Apesar daquela dia/noite miseravel que tivemos, acordamos com um sol maravilloso! Tudo que estava molhado na noite anterior secou em questao de minutos quando estendemos nossas roupas e sapatos no sol pelo chao do acampamento.

E estava aquele clima de despedida no ar… Os carregadores, os ajudantes…

Durante o café da manha organizamos nossas financas em grupo e decidimos oque iamos dar de gorjeta para cada um deles, quem faria os discursos (o Aaron foi o eleito) e finalmente tivemos animo para conversar sobre o dia anterior e nossos feitos! Quem tinha chegado ate que ponto, as historias de horror dos que passaram mal, a ajuda que receberam dos guias e da equipe de apoio, e todas as nossas impressoes finais da viagem.

Fizemos nossa “ceremonia” de gorjeta, que foi nossa oportunidade final de agradecer e nos despedir de todos os ajudantes e carregadores, tirar muitas fotos e seguir viagem!

Ainda tinhamos mais 6 ou 7 horas de caminhada pela frente, para finalmente sair do Kilimanjaro!

E a caminhada foi uma delicia! Como eu queria que todos os outros 5 dias tivessem sido!

O sol maravilhoso, a paisagem de tirar o folego, as vistas de Mawenzi e Kibo (Uhuru), as plantas diferentes… O humor de todo mundo estava completamente diferente, e a cada passo iamos nos sentindo melhor e melhor!

Mas foi uma caminhada muuuuito longa, e a partir da metade (depois de umas 3 ou 4 horas descendo) a trilha comecou a ficar muito ingreme, e foi ai que senti que tinha alguna coisa muito errada com meu joelho! Uma dor e um incomodo estranho, como eu nao tinha sentido ate entao… alguna coisa “empurrando” minha patela para fora da minha perna!

Passei a caminhar mais devagar, tentando compensar mais na perna direita. Ate entao meu joelho direito estava intacto, mas depois de umas 2 horas mancando, o joelho direito comecou a doer tambem, e pra completar, umas fisgadas na coxa direita (acho que estava andando muito torta e tudo ficou meio desconjuntado…).

Quando paramos para almocar no acampamento Mandara, eu nem consegui sentar (no chao), pois sabia que probablemente nao iria conseguir me levantar!

As ultimas 2 horas da descida foram simplesmente torturantes, mas nao tinha nada que eu pudesse fazer aquela altura. Tinha que sair do parque eventualmente, e a ideia de poder tomar um banho quente era tentadora demais!

E finalmente conseguimos! Depois de 7 horas montanha abaixo chegamos no portao final – e ainda tivemos que lidar com a burocracia final de registro do governo da Tanzania, devolver os equipamentos alugados e seguir pro hotel amontoados num jeep capenga!

Mas a recompensa… Ah! A recompensa…!!

Acho que passei umas 3 horas debaixo da agua fervendo do chuveiro…

Eu queria ir direto para cama, mas ainda tinhamos que ir jantar com o grupo e participar do briefing final, onde iam nos explicar sobre o safari e os proximos dias que estavam por vir! E aproveitei tambem para me re-conectar com o mundo e usar a Internet do hotel um pouquinho.

A esse ponto meu joelho esquerdo estava do tamanho de uma bola de futebol, entao fui medicada, enfaixada e coberta de gelo!

O Makeke veio nos ver uma ultima vez e trouxe nossos certificados de conclusao!

A noite for extremamente mal dormida pois tudo doida e parecia fora do lugar… apesar de estar meio grogue por causa do cocktail de comprimidos que me deram, eu nao conseguia me mexer direito na cama (Macia demais? Limpa demais? Quentinha demais? Seca demais? Cheirosa demais?!) e por incrivel que pareca foi a pior noite que tive desde o comeco da viagem!

Mas engracado memso foi no café da manha no dia seguinte, onde todos reclamaram da mesma coisa!

E entao comecamos o Safari!!

P.S. Meu joelho ja esta quase 100% recuperado. AInda vai demorar um tempinho pra poder voltar a correr, mas pelo menos nao doi mais, e nao aconteceu nada serio.

Adriana Miller
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05 Oct 2010
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Dia 5 (continuacao): de Kibo Hut a Horombo Camp

Kilimanjaro, Tanzania

O dia 5 foi uma especia de dia da Marmota… aqueles dias que nunca acabam e as coisas se repetem mil vezes na sua cabeca…

Esse dia, que na verdade comecou ainda na noite do “dia 4″, teve toda escalada final ate Uhuru Peak, e como se nao bastasse, depois de uma misera hora de descanso, seguimos viagem ao acampemento Horombo, que fica a cerca de 3700 metros de altitude.

Eu sabia que o dia do summit seria o mais difícil de todos (e foi!) e posivelmente o mais difícil de nossas vidas (e foi!), mas nao imaginava que seria tao puxado assim.

O cochilo de 1 hora na volta de Uhuru foi rejuvenescedor, e a ideia de poder dormir a noite inteira num lugar que nao fosse tao congeladamente frio e com oxigenio mais abundante era tantador…

Alem disso eu sabia (achava) que a descida daquele dia seria relativamente facil, pois iriamos cruzar a parte do deserto que eh relativamente plana e aberta.

O problema? Mais um temporal de granizo nos alcancou em pleno deserto, com ventos violentos que arremessavam as bolinhas de granizo como se fossem um estilingue!

E fomos descendo, descendo, descendo… ate chegamos no ponto onde o granizo acabou, e ficamos apenas com um temporal de agua mesmo…

Foi a pior chuva que pegamos na montanha, e por mais de 2 horas caminhamos sem parar debaixo de um temporal, daqueles temporais de fazer o Rio de Janeiro, em plenas aguas de marco se orgulhar…

Nessas horas colocamos todo nosso equipamento a teste, e todos falharam…

A capa de chuva da minha mochila nao deu conta do recado, minhas botas firacam empapadas, luvas, o gorro de la por Baixo do gorro da capa de chuva, as pernas da minha calca… Tudo molhado e gelado! SAbe aquela chuva de pingo grosso?!

Mas a caminhada em si foi divertida, e vimos um lado diferente do deserto e passamos por um “jardin” de arvores Sinecio pelo caminho! Pena que nao deu para tirar muitas fotos, pois nao queria estragar minha camera na chuva…

Quando finalmente chegamos no acampamento final foi aquele alivio… mal sabiamos nos que as barracas tambem molharam, nossas malas com roupas, colchao termico, saco de dormir… tudo pingando!

Ainda bem que tinhamos o alivio psicologico de saber que aquele seria nossa ultima noite na montanha, porque sem duvidas foi a pior de todas… estavamos muito alem de exhaustos depois de caminhar, subir e descer, praticamente sem parar por mais de 17 horas, o frio, as roupas molhadas, o saco de dormir molhado e frio…

Alem disso meu joelho e meus ombros jah estava doendo bastante oque dificultou meu “aconchego” na barraca… cada lado que eu virava era uma dor e um incomodo diferente… mas ai eu pensei: amanha eu vou tomar banho e dormir numa cama de verdade!

Adriana Miller
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04 Oct 2010
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Dia do Summit: Kibo Hut – Williams Point – Guilman’s Point – Stellar Point e Uhuru Peak! E logo depois, a descida…

Dicas de Viagens, Kilimanjaro, Tanzania

Depois de ter cochilado por mais de duas horas a tarde, nao consegui pegar no sono de jeito nenhum! E quanto mais eu pensava que tinha que me obrigar a dormir, menos sono eu tinha!

Fiquei pensando no frio, na escuridao, no cansaco, na dor no pescoco e na neve que nao parava de cair do lado de fora da barraca…

As 11 da noita em ponto o guia veio nos “acordar” – tivemos que nos arrumar e arrumar nossa barraca na escuridao total! O café da manha parecia um funeral… Ninguem tinha conseguido dormir direito (ou sequer dormir) e 2 pessoas estavam passando muito mal… Preparamos nossas garrafas de agua com agua fervendo (que congelaram pelo caminho!) e la fomos nos!

Comecamos a nossa caminhada a meia noite e foi uma coisa surreal! A neve tinha parado de cair e o ceu era um tapete infinito de estrelas!

Mas andar na escuridao total, apenas com uma lanterna de cabeca, foi muito mais dificl que imaginava!

A explicacao do porque comecamos a escalada a noite foi bem simples: como o solo nessa area da montanha eh composto de areia e cinza vulcanica, eh um terreno muito difícil de se caminhar… seria como escalar dunas de areia, a 5 mil metros de altitude… Entao durante a noite, como a temperatura esta sempre abaixo de zero, o ano todo, o solo congela e a area + cinza ficam compactas e faceis de andar.

Mas foi dificl nao tropecar nas pedrinhas no chao, e manter o equilibrio na subida quando a unica coisa que conseguia enxergar na frente de meu nariz (congelado) era um foco de luz no logo da mochila do Aaron…

Mas o pior mesmo foi a concentracao mental… depois de cerca de uma hora de caminhada acabei ficando MUITO entediada! Serio! Um tedio fora do normal…! Ninguem conseguia conversar porque mal tinhamos ar para respirar… nao tinha nada para ver a nossa volta… nao conseguia tirar fotos de nada pq estava escuro demais (tirei algumas fotos ao longo da noite, mas a grande maioria ficou fora de foco, ou escura demais, ou sme o menor sentido)… Meus pensamentos comecaram a me enlouquecer e fiquei com um MEGA mau humor!

Foi uma coisa meio claustrofobica como nunca senti na vida. Uma ansiedade esquisita, como se estivesse fechada num lugar escuro…

Para completar, pouco a pouco meus pes comecaram a congelar demais, e jah nao sentia nada do tornolezo para baixo. E somado a isso, umas duas horas adentro da caminhada, meus ombros e pescoco comecaram a doer demais outra vez, ainda sequela da tarde anterior, somado ao frio e estar mais uma vez subindo com a cabeca baixa (para me proteger do vento cortante e para conseguir enxergar onde estava andando…). Sofri calada com a dor por mais ou menos mais uma hora, ate que chegou um ponto em que as “facadas” de dor no meu pescoco se tornaram insuportaveis! E tudo isso contribuindo pro meu desespero de frio, claustrofobia, tedio e dor! Quando estava a ponto de largar a mochila por lah, num canto qualquer (com maquina fotografica, garrafas de agua, capa de chuva, comida e tudo mais), o guia (Makeke) se ofereceu para levar minha mochila e me salvou!

Foi incrivel como aquele gesto me relaxou, e nao estar mais sentido dor aliviou meus outros sintomas…

Mas isso causou um problema ainda pior! SONO! Assim que parei de sentir dor, do nada me bateu um sono avassalador! E nesse ponto da caminhada o grupo ainda estava todo junto, e 2 pessoas estavam se sentindo muito mal e estavam andando MUITO devagar! Para entreter minha mente entediada naquela escuridao eu fiquei contando quantos segundos demoravamos entre um passo e outro, e adivinhem!? 3 segundo por passo! Serio, eh muita coisa! Mas eh o tempo que leva para darmos uma inalada profunda de ar a cada passo.

O problema eh que esse nao era meu ritmo, e meu pulmao estava se virando muito bem obrigada. Entao esses 3 segundos por passo eram o suficiente para que eu pegasse no sono entre um passo e outro! Sabe aquele sono que doi? Incontrolavel? Dei varios tropecoes, porque dormia enguanto andava! Que desespero que aquilo ia me dando! E isso tudo foi virando um transe, onde juntou o sono, a claustrofobia da escuridao, os passos ritmados, o frio e uma alucinacao generalizada (efeito da falta de oxigenio, segundo o guia).

Aliais, tem uma historia interessante nessa parte da alucinacao. No terceiro dia da caminhada o guia descobriu que eu era Brasileira. Entre varios papos de futebol para cah e para lah, ele se deu conta de que o Ingles nao era minha lingua materna e ficou preocupadíssimo! Aparentemente, um dos efeitos da altitude eh alucinacao causada pela falta extrema de oxigenio oque pode causar  falta de memoria temporaria, e consequentemente algunas pessoas nao conseguem se comunicar em lingua extrangeira. Entao ele me mostrou seu caderninho-emergencia com frases chave em tudo quanto eh lingua: holandes, russo, frances, espanhol, alemao, etc… e comecou a anotar algunas frases e palavras em portugues tambem. (e o Aaron confirmou que em sua escalada na Bolivia, no ultimo dia ele nao conseguia lembrar o nome da propria irma por nada no mundo!)

Entao quando eu estava nesse momento de transe (e chata para caramba, pois segundo o Aaron eu nao parava de reclamar e tagarelar, enumenrando tudo que eu ia exigir que ele fisesse por mim depois da viagem, afinal era tudo culpa dele e eu soh estava la por causa dele, e aquele era a pior noite da minha vida e era tudo culpa dele! HAHAHAH) o Makeke sacou seu caderninho e comecou a me preguntar varias coisas em Portugues, para ver se minha chatisse era puro cansaco e mau humor ou se era efeito da altitude… mas era soh irritacao mesmo!

E entao algo aconteceu! Um dos senhores do nosso grupo desmaiou! Apagou completamente por falta de oxigenio! Os guias entraram em mode primeiros socorros para levar ele de volta pro acampamento, e entao decidimos dividir o grupo. Nessa divisao eu, Aaron, os dois irmaos Escoceses e um outro cara seguimos na frente com o Makeke, e nesse momento tudo se transformou!

Entramos num ritmo otimo de caminhada, bem mais rapido que estavamos antes e rapidinho eu despertei e sai do meu transe de chatisse! Foi mais ou menos nessa hora que passamos da caverna de William’s Point, que marca os 5 mil metros de altitude e vimos no horizonte o pico Mawenzi pequenininho lah em baixo… E vi tambem como a lua estava LINDA e reparei que o horizonte ja nao estava TAO escuro como antes.

A subida foi ficando mais e mais ingreme e cheia de pedras a medida que iamos subindo, e lah pras 5 da manha, cerca de 5.500 metros de altitude o sol comecou a desapontar no horizonte!! QUE VISTA MARAVILHOSA!!!!

O horizonte comecando a mudar de cores, Mawenzi la em baixo, as luzes da fronteira do Kenya perdidas laaaaaaa em baixo no horizonte. Demos un ultimo gaz, pois queriamos conseguir chegar no primeiro pico do Kilimanjaro, o Guilman’s Point, a tempo do nascer do sol: Tinhamos cerca de 45 minutos para escalar (na unha!) os ultimos cento e poucos metros de altitude.

E conseguimos!

Assistimos o nascer do sol mais fantastico do universo, a 5.600 metros de altitude, no topo da Africa!

Infelizmente ficamos pouquissimo tempo lah em cima – nossas garrafas de agua estavam congeladas, aos poucos o frio foi piorando (eh incrivel a diferenta de temperatura no corpo quando estamos andando e quando paramos por poucos segundos!) e tinhamos que decidir: queremos seguir ateh Uhuru Peak por mais 3 horas, ou nao. Um dos irmaos Escoceses sentou e nao conseguir levantar mais. Ele tinha atingido seu limite e nao conseguia andar mais. E depois o Aaron confessou secretamente que ele achava que eu tambem ia desistir, e se isso acontecesse, ele teria desistido tambem…

Mas nao! Eu fui logo a primeira a sair andando pelas pedras! Aquele por do sol, Mawenzi, os glaciares e tudo a minha volta, tinham me dado um novo animo de energia e eu sabia que TINHA que conseguir chegar ate o final!

Entao nos 4 e Makeke comecamos nossa caminhada final… sao apenas 200 metros de altitude, e cerca de 800 metros em distancia (menos de 1 quilometro!) e Uhuru estava tao perto! Jah conseguiamos ver o topo, viamos os grupos de turistas descendo a montanha, mas foram os metros mais dificeis ate entao.

O pulmao jah nao responde, as pernas ja nao respondem…. Eu comecei a chorar incontrolavelmente… uma sensacao sem igual de nao poder mais, mas saber que jamais me perdoaria se parasee estando ali tao perto (um sentimento que os Ingleses descrevem tao bem com uma unica palavra: Overwhelmed! Eu me sentia completamente overwhelmed e inundada por todos os sentimentos bons e ruins que existem!). E a cada passo eu continuava chorando; diferentes grupos de turistas com seus guias iam descendo pelo mesmo caminho e nos dando forca “You can do it!” “You’re almost there!” “Dont’t give up now!” e eu ia chorando mais e mais (serio, chorei escrevendo esse post, soh de lembrar a inundacao de sentimentos e dores, e tudo mais daquelas ultima duas horas de caminhada!).

Ate que viramos a curva que nos deixou ali… cara a cara com a reta final… com a placa que repete para o mundo “CONGRATULATIONS YOU HAVE REACHED UHURU PEAK 5895 METERS ABOVE SEA LEVEL THE HIGHEST POINT IN AFRICA AND THE HIGHEST FREE STANDING MOUNTAIN IN THE WORLD”!!! (Parabens voce alcancou o pico Uhuru a 5.895 metros acima do nivel do mar, o ponto mais alto da Africa e a montanha mais alta do mundo).

Se eu tivesse oxigenio suficiente no meu sangue e meus musculos, teria dado um pulinho de emocao, e teria feito a danca da felicidade! Mas em vez disso eu chorei. E chorei, e chorei. E abracei o Aaron, abracei o Makeke e saquei minha camera fotografica do bolso interno do casaco! (estava no bolso interno para ficar quentinha, jah que a altitude e o frio podem descarregar a bateria da camera e cristalizar as lentes – entao preferi nao arriscar, e as fotos da subida foram tiradas com minha maquininha velha, que levei soh para registrar essa esclada final!).

Tiramos muitas fotos, por momentos que pareciam uma eternidade la em cima. O Uhuru Peak era so nosso, e tinhamos toda a Africa aos nossos pes!

Mas a pesar do sol estonteante que estava la em cima, o vento era de matar e o Makeke logo nos lembrou que a pesar de termos conseguido chegar ate o final, agora faltava descer tudo de novo!!!!

E entao comecamos pouco a pouco a descer. Dizem que para baixo todo Santo ajuda, neh? Fui nessa feh ladeira abaixo e fui deixando meu corpo ser carregado pela gravidade…

Ate que chegamos de novo na parte onde a areia e cinza vulcania jah tinha comecado a derreter… e a trilha que usamos para subir tinha virado um rebulico de lama preta….

Seriam mais 3 horas descendo (sao 4 horas para descer o mesmo percurso que demorou 9 horas para subir) mas o Makeke propos um atalho que prometia economizar 1 hora de nossa descida! E la fomos nos, praticamente de Ski-bunda montanha abaixo!

Nossas pernas enterravam ate o joelho na areia e deslizava alguns metros pra baixo, enquando ainda tentava desenterrar a perna anterior para repetir o processo. Usei as “bengalas” de caminahda para manter meu equilibrio e dar uma forcinha ao meu joelho, que pouco a pouco ia sentindo o esforco de descer uma ladeira tao violenta e tao rapido, e o peito latejava a cada inalada, com uma respiracao pesada sem oxigenio, mas tudo que eu queria era ir mais e mais rapido e chegar logo la em baixo!

E la fomos nos… 1 hora… 2 horas…. As nuvens subiram e nos alcancaram no meio do caminho, mas eu estava suando em bicas, e jah tinha tirado quase todos os meus casacos… Ate que o guia apontou uma formiguinhas lah em Baixo… “Olha eh o Kibo Hut! Estamos chegando perto! Mais 1 hora e estamos lah!”

UMA HORA?!?! Eu nao aguentava mais nem um segundo… mas tudo que sobre, desce… e fui seguindo meu deslizamento de barranco abaixo sonhando com minha barraca!

Quando finalmente chegamos na entrada de Kibo, varios de nossos carregadores estavam lah nos esperando! Vieram ajudar a nos carregar de volta pras barracas, carregar nossas mochilas e casacos e atender qualquer pededido especial (Agua! Agua!!)!

Fui direto para minha barraca e me recusei a ir almocar – e entao me dei conta que nao tinha comido nada, e mal bebi agua durante as ultimas 12 horas! (e nem fui ao banheiro nesse tempo todo, mas ai jah eh too much information….).

Entrei na barraca com lama ate os joelhos, sem colchao nem saco de dormir… Onde meu corpo encontrou o chao congelado da barraca, foi onde eu fiquei, e apaguei instantaneamente!

Mas cerca de 1 hora depois, os guias vieram nos acordar de novo… era hora de comecar a caminhada de volta, pois tinhamos que descer pro acampamento Horombo, a 3700 metros de altitude, para que nosso Corpo pudesse se recuperar com oxigenio suficiente.

Nossa, e o mau humor que me assolava?!??!

Mas tudo bem.

Arrumei minhas coisas de volta na mochila e comecamos a descer pelo deserto, na direcao contrario de onde viemos (agora estavamos descendo pelo lado sul da montanha)…

Adriana Miller
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01 Oct 2010
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Dia 4: Mawenzi Camp a Kibo Hut

Dicas de Viagens, Kilimanjaro, Tanzania

A pesar do temporal da noite anterior, o dia acordou super limpo, e nosso acampamento tinha uma vista sensacional!

A visao privilegiada de Mawenzi de um lado, com a visao privilegiada do Uhuru Peak e seus glaciares no outro lado… E tudo isso bem acima das nuvens!

Aliais, a experiencia de acordar em cima das nuvens, e ver o mundo de cima das nuvens eh sem igual…. Ate hoje sempre que olho pro ceu e vejo nuvens (que acontece bem frecuentemente em Londres!), principalmente aquelas bem fofinhas, eu sempre penso “Jah vi o lado ‘avesso’ das nuvens!”!

A caminhada do 4º dia, teoricamente seria bem facinha…. Apenas 370 metros de altitude ganhas numa subida bem gradual cruzando o deserto Alpino na base do Kilimanjaro… Teoricamente isso seria fácilmente alcancado em cerca de 4 horas…

E realmente o dia comecou bem! Com sol e vistas lindas… mas pouco a pouco viamos as nuvens subindo em nossa directo, e cerca de 1 hora depois que cometamos a caminhas, o tempo fechou de novo. E foi tambem justamentemente quando cegamos na area desertica, sem nenhuma pedrinha nem arvore para nos proteger do vento e tudo mais que vinha pela frente.

Pouco a pouco o tempo foi piorando…

Primeiro foi um baita temporal! Uma chuva forte que ate assustou os guias, pois nao eh normal que chova tao “grosso” a essa altitude, e muito menos nessa epoca do ano…

Quando achei que nao dava mais para piorar, jah estava congelada e encharcada, a chuva – como magica – se transformou em temporal de granizo! Umas pedronas de gelo que chegavam a machucar! Depois de um tempinho fiquei com uma baita dor no descoco e nos ombros de tanto andar com a cabeca baixa para proteger meu rosto do granizo!

E para completar a miseria, nossa ultima hora da caminhada (com o acampamento jah a vista!) o granizo se transformou numa tempestade de neve!!!

Chegamos no acampamento destruidos, congelados e exaustos!

A nossa sorte (que depois se provou ter sido um grande azar!) foi que conseguimos etrminar a travessia em pouco mais de 5 horas, entao nos serviram um almoco reforcado e tivemos a tarde livre!

E ai que estava o problema… com a tarde livre, morrendo de frio e sem nada para fazer, me encasulei no meu saco de dormir e acabei cochilando por mais de 2 horas!!

Na hora foi otimo…. Quando o guia veio ns acordar pro briefing final, eu estava renovada…!

E entao nos serviram o jantar as 5 da tarde e tinhamos mais 5 horas para descansar!

Nosso ulimo – e principal!! – dia de escalada comecaria pontualmente as 11 da noite daquele mesmo dia e nos levaria ate o topo da Africa!

Adriana Miller
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